quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Prazer pela metada



"A vida anda cheia de meias
porções, de prazeres meia-boca,
de aventuras pela metade. A gente
sai pra jantar, mas come pouco.

Vai à festa de casamento,

mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual,

mas tem que fingir que é difícil
(a imensa maioria das mulheres
continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').

Adora tomar um banho

demorado, mas se contém pra não
desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos

mais novo, mas tem medo
de fazer papel ridículo.

Tem vontade de ficar

em casa vendo um DVD, esparramada
no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação

em 'acertar', tanto empenho em passar
na vida sem pegar recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero,

politicamente correta e existencialmente
sem-graça, enquanto a gente vai
ficando melancolicamente sem tesão...

Às vezes dá vontade de fazer

tudo 'errado' deixar de lado a régua,
o compasso, a bússola, a balança
e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente

e não estar nem aí pro que dizem e
o que pensam a nosso respeito. Recusar
prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo,

uma vez se rebelou e disse uma
frase mais ou menos assim:
'Deus, dai-me continência e castidade,
mas não agora'...

Nós, que não aspiramos à santidade

e estamos aqui de passagem,
podemos (devemos?) desejar várias
bolas de sorvete, bombons de
muitos sabores, vários beijos bem
dados, a água batendo sem pressa
no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.

Um dia.
Não tem que ser agora.
Por isso, garçom, por favor,

me traga: duas bolas de sorvete de
chocolate, um sofá pra eu ver
10 episódios do CSI, Grey´s Anatomy,

House ou 'Law and Order',
uma caixa de trufas bem macias
e o Richard Gere, nu, embrulhado
pra presente. OK ?
Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que

faz pra consertar o estrago."



Por Leila Ferreira